Passaram-se cerca de três meses e meio desde que escrevi neste espaço pela última vez, criado precisamente para dizer aquilo que me apetece, sem censuras. Não é que, de repente, tivesse ficado sem coisas para dizer. Nunca. Como já disse por aqui algures, há sempre um turbilhão de palavras dentro desta cabeça prontas a sair. Desta vez não foi diferente. Não tinha era força suficiente para as dizer. Nem verbalmente nem através dos dedos, pela escrita.
A última coisa que mencionei aqui foram as viagens. O ir. Ir embora, mudar de ares, deixar aquela inércia incapacitante que me impedia de sair do mesmo lugar. Aquela inércia incapacitante que me sugava as forças para falar e escrever. Esse último texto acabou por ser um prenúncio do que viria acontecer a seguir. Não foi intencional o texto sobre viagens, sobre um desaparecer temporário, sobre uma mudança de ares - que era urgente! - mas a verdade é que depois disso nada mais havia para dizer. Era aquilo mesmo.
Estava numa fase da minha vida, que já se vinha a arrastar por longos meses, em que tudo me parecia aborrecido, baço, incolor. A rotinazinha de sempre da qual já não tirava prazer nenhum, a mesma vidinha sem sal de segunda a domingo. Os mesmos passos. Os mesmos lugares. As mesmas pessoas que já nada me diziam. As mesmas conversas ocas. Sentia-me a sufocar. Era como se estivesse no meio de um lago fundo, de águas paradas, - paradíssimas - e, de repente, começar a descer, a afundar-me lentamente. Quando dei por mim já só tinha a cabecinha de fora. Usei o último fôlego para reunir forças e sair.
Cresci. Acho que foi isso. Comecei a mudar lentamente, a querer coisas novas. A querer mais. Curioso. Sempre achei que não era preciso querer mais. Que o que tinha estava bem assim. Não era perfeito, estava, de facto, longe disso, mas também não era horrível. Era... medianozinho. Morninho. Assim assim. Era o estar com alguém que já não nos dizia absolutamente nada. Que já nada tinha a ver conosco como, aliás, nunca teve. Mas, apesar de saber disso perfeitamente, deixar-me estar. No entanto, um dia acordei e a minha vida começou a ser o poema de Eugénio de Andrade. Todos os dias acrescentava um verso novo. E todos os dias a realidade se abatia com mais clareza sobre mim. As conversas passaram a discussões exasperantes, que nunca levavam a lado nenhum; das discussões, já com as palavras gastas, passou-se ao silêncio; a convivência, que até ali era tolerada - lá está, morninha, assim assim - passou a ser praticamente impossível; o toque da e na outra pessoa passou a ser algo completamente inimaginável. E, de repente, só uma coisa fazia sentido dizer.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
É difícil perceber que já não gostamos de alguém. Que aquela pessoa, afinal, não é a nossa pessoa. É inevitável não pensarmos que, afinal de contas, andámos a perder tempo. Estivemos 2, 3, 4, 5 anos com alguém que, afinal de contas, não é bem aquilo que queremos. É doloroso. Acho que tão doloroso como ouvirmos alguém dizer que já não gosta de nós. Ter 'a' conversa não é fácil. Lidar com o desgosto e a fúria que nos vem do outro lado é difícil. Custa.
Como sou pessoa que não gosta de passar por estas coisas difíceis sozinha, fui desabafando com quem me era mais próximo. A ideia era desresponsabilizar-me. Ter alguém que me dissesse o que fazer. "Faz isto. Isto é que é o melhor para ti." e pronto, eu fazia e estava o assunto arrumado. Mas não. Nunca ninguém nos diz o que fazer.
Conselhos? Desses houve muitos. Uns mais inteligentes e realistas que outros. Mas o melhor de todos veio de alguém experiente nestas coisas do amor e do desamor, e que até disserta sobre isso, que me disse que o que eu tinha de fazer era uma viagem interior e perceber o que queria realmente para a minha vida. E que não, não faz mal querermos mais e melhor para nós. Que temos esse direito e o dever de fazer crescer essa raça de gente.
E então comecei a fazer essa viagem.
Não muito tempo depois, percebi que o que queria era um homem inteligente e com abertura para a vida, que pudesse crescer ao meu lado, que me fizesse querer ser uma pessoa melhor e que deixasse que eu o tornasse uma pessoa melhor, que ouvisse o que tenho para dizer, que tivesse objectivos de vida em comum comigo, que gostasse de cinema, de ler, de se cultivar, que não fosse parar ao hospital com uma crise de urticária só de ouvir falar em casamento. Que não fosse egoísta. Que pensasse a dois. Que quisesse criar um projecto de vida a dois. Feito a dois.
"É isto que eu quero", foi essa a conclusão a que cheguei. "Mas isso não existe!", rematei logo de seguida, fiel ao meu pensamento pessimista. Durante uns meses resignei-me e aceitei o meu futuro como solteirona. Estava pronta a abraçar uma vida numa casa gira e cheia de estilo, rodeada de gatos.
Mas, de repente, os planos mudaram. Afinal tudo aquilo que eu queria existe! Tudo incluído numa só pessoa. E eu encontrei essa pessoa. A que me complementa, que tem tudo a ver comigo, que olha na mesma direcção que eu. A minha pessoa. E, de repente, pareço uma criança no dia de Natal.
É bom. É tão bom estar com alguém com quem as coisas simplesmente batem certo. Fazem sentido. Alguém que me deixa absolutamente 'amazed' com aquilo que diz e com a pessoa que é. Alguém que, pela primeira vez na vida, me fez chorar de felicidade a meio de uma conversa. Porque foi aí, nessa conversa, que tive a certeza que era ele. Porque foi nessa conversa que tive a confirmação que estava ali, finalmente, a minha pessoa.
Quando penso no medo que tinha de sair de onde estava, completamente sufocada, para procurar o que tenho agora, acho tudo isso ridículo. O medo só serviu para me paralisar e adiar uma coisa boa. Se calhar devia ter saído mais cedo. Ou talvez não. Talvez as coisas tenham acontecido no momento certo e era assim que tinha de ser.
Tudo leva o seu tempo - ouvi hoje o senhor da MultiÓpticas dizer quando estava a falar da duração de um exame à vista - e, se calhar, o tempo que nos levámos a encontrar foi, simplesmente, o tempo necessário para estarmos dispostos a amar alguém como nos amamos agora. Para estarmos dispostos a entregarmo-nos a alguém como nos entregamos agora. Sem medos. Sem joguinhos inúteis que eu detesto e não sei jogar. Acho que o segredo é, simplesmente, não procurar. Quando procuramos alguém passamos uma imagem desesperada e, inevitavelmente, só atraímos pessoas que não interessam. Assim que encolhermos os ombros e começarmos a pensar noutra coisa... tropeçamos em alguém, ou alguém tropeça em nós, e a coisa dá-se.
Se antes estava num estado de espírito 'dark and twisty', agora estou completamente ' bright and shiny', usando a terminologia da Anatomia de Grey. E até podia dizer que tudo isto é uma coisa muito típica dos inícios, que nos inícios tudo é 'bright and shiny', mas não. Nunca nenhum início foi assim. E tenho a certeza que isto não é uma coisa apenas de início. É uma coisa para manter, para preservar, para cuidar, para respeitar. Para cultivar para ir crescendo cada vez mais forte. Porque é uma coisa... não, uma coisa não, um amor, verdadeiro, que faz sentido, que é forte desde o início, que não começou a ser construído à pressa, pelo telhado - como muitos amores são -, mas pelo início, pelo básico, e que, por isso, começou com a melhor das estruturas, com a melhor das bases. E, no final de contas, não é isso que dá toda a segurança? Não só às casas, mas também ao amor?
Estamos a falar de viagens. Foi delas que estive a falar até agora, das interiores, mas também quero falar das outras. Das viagens para fora. Foram duas.
A primeira com amigos, a Londres, onde aprendi muitas coisas que me vão ser úteis para o futuro.
Coisa número 1 - não se vai para a porta de embarque de um avião 10 minutos antes do avião partir. Sim, isso aconteceu e três de nós ficaram em terra. Eu fui uma dessas três. Paguei mais 70 euros pela alteração do bilhete e acabei por passar um dia e meio em Londres em vez de três. Tudo porque um dos membros do grupo teve um ataque de fome de quem já não comia há uma semana e teve de se sentar a comer, com toda a sua calma, uma sandes mista.
Coisa número 2 - nunca, jamais, viajar com pessoas que não conhecemos bem. Sou uma pessoa que vive os sítios onde está, que explora as coisas com o olhar, que leva o seu tempo nas observações dos espaços. Não posso, nunca!, viajar com pessoas que palminham Londres como fazem em Lisboa, com passo apressado como se estivessem com pressa para apanhar o metro.
Coisa número 3 - não deixar a organização do roteiro e da compra dos passes para andar nos transportes lá do sítio por mãos alheias. Especialmente se as mãos alheias forem das tais pessoas que não conhecemos assim tão bem. Gastei 10 libras num passe de 3 dias quando podia ter gasto apenas 5.
Coisa número 4 - quando duas pessoas que se amam se estão a despedir apaixonadamente porque vão estar uns três longos dias separadas, é deixá-las. Nunca se apressam duas pessoas que se estão a despedir apaixonadamente. É uma maldade atroz. Uma violência. E agradeço que não me voltem a fazer isso. Sou uma pessoa que tem muita dificuldade em lidar com despedidas, ainda que só por três dias, e, por isso, preciso do meu tempo. É o mesmo que se passa com as observações dos sítios.
Coisas menos boas aparte, Londres é uma cidade muito bonita, fria comó raio e cara. E ainda hoje não consigo converter euros para libras como deve ser. Em Notting Hill bebi um café expresso - que mais não era que uma pinga de café no fundo da chávena - e um muffin e, só quando cheguei a Portugal, umas horas depois, e me pus a fazer contas, é que percebi que tinha pago 5€ por aquilo.


A segunda, da qual regressei no passado fim-de-semana, foi a Paris, foi com a minha pessoa e foi fenomenal. A cidade é lindíssima, muito mais interessante que Londres mas igualmente cara, e é daqueles sítios que fazem muito bem ao amor. É a Torre Eiffel iluminada, são os jardins, os crepes a transbordar Nutela à venda em qualquer esquina, o pitoresco de Monmartre, aquele idioma cheio de renhonhós que não se entende mas que até soa bem, as esplanadas cobertas a forrar as ruas... é tudo. Quem disse que é a cidade do amor disse muito bem. Agora também eu posso dizer, qual Malato, que já fui muito feliz em Paris. Eu vou voltar a ser! De preferência no verão, que eu sou pessoa que não se dá com o frio e a roupa de inverno faz muito peso na mala.
Há mais para dizer, mas é tarde e eu amanhã começo o dia a escrever sobre um jogo de futebol que teve lugar em 1964. Acho que o essencial está dito.
Já sou uma pessoa com pins no frigorífico, libras na carteira e uma medalha do Sacré Couer guardada na mala mas, sobretudo, sou uma pessoa que, agora, consegue respirar. Não há nada que me sufoque, que me queira fazer sair, que me dê vontade de ir. Agora só tenho razões para ficar. A ir, a viajar, nunca para longe da minha pessoa, sempre com ela. Quero é ver o mundo na melhor das companhias e, no regresso, construir algo nosso, sólido, honesto e bonito.